A Bolha do Mercado Acionário Japonês

Optamos hoje por postar um texto incrível de Tiago Reis por 2 motivos. Primeiro por compreender que muitas respostas ao nosso presente já foram esclarecidas em nossa história, ou seja, temos que tomar cuidado para não cometermos os mesmos erros do passado, e segundo pelo momento atual necessitar de revisões sobre o que não deu certo no passado. Na edição de hoje, comentaremos a bolha que afetou a economia japonesa em 1989, levando o Japão a uma recessão que dura até hoje. Essa bolha nos traz ensinamentos sobre os perigos de uma postura expansionista dos bancos centrais – e os riscos de o investidor seguir a manada. Em primeiro lugar, o precursor da bolha de 1989 foi a grande expansão da economia japonesa materializada no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Nessa guerra, o Japão foi derrotado e sua economia sofreu perdas pesadas. Logo depois da guerra, o desemprego do Japão era muito alto; a inflação, gigantesca. Também faltavam matérias-primas e comida no país. A situação levou diversos economistas globais a acreditar que o país nunca teria uma economia forte e que viveria basicamente de subsistência. Apesar do pessimismo global, o Japão planejava uma recuperação. Para tanto, dispunha de profissionais capacitados, uma boa rede de infraestrutura e um governo que visava a recuperar sua economia. Com seus esforços e o apoio dos Estados Unidos no pós-guerra, em 1950 a economia japonesa já havia se estabilizado. Na década de 1960, o Japão passou a ser conhecido como um milagre econômico, com crescimento acima de 10% em seu PIB ano após ano. No início desse grande crescimento econômico, as empresas japonesas não recorriam ao mercado de capitais para arrecadar fundos, mas aos bancos. Portanto, esse sistema fez os bancos desempenharem um papel importante na economia. Na década seguinte, a economia japonesa já não crescia tanto quanto antes, porém suas exportações de carros e produtos tecnológicos, principalmente para os EUA, permitiram que o país ainda crescesse de forma acentuada. Em 1974, a balança comercial do Japão com os EUA estava praticamente no zero a zero. Em 1976, o déficit dos EUA na balança comercial com o Japão estava em US$ 4 bilhões. Em 1978, em cerca de US$ 10 bilhões; em 1985, em cerca de US$ 40 bilhões. Dessa forma, na década de 1980, a economia japonesa parecia estar no caminho de se tornar a principal economia global. Com esse otimismo, o mercado imobiliário e o mercado acionário tiveram grande expansão: investidores estrangeiros buscavam investir cada vez mais na economia japonesa. Os bancos do país passaram a ser os maiores do mundo, ao passo que as empresas automobilísticas, como a Toyota, eram vistas como modelos a serem seguidos globalmente. Em 1985, os EUA pressionaram o Japão a fortalecer o iene, sua moeda local, em relação ao dólar, o que fez o Banco do Japão tomar uma medida expansionista. Esta reduziu as taxas de juros do país e tornou ainda mais fácil investir, impulsionando os mercados imobiliário e acionário. Com isso, os preços dos ativos cresceram tanto no Japão que o Palácio Imperial, uma área de 3,4 km² no centro de Tóquio, valia mais que todos os imóveis da Califórnia. O valor imobiliário japonês total era quatro vezes superior ao dos Estados Unidos. As empresas japonesas, que tinham o costume de se financiar apenas por meio de bancos, já estavam recorrendo ao mercado acionário, pois as instituições financeiras não suportavam tamanho crescimento. Aos bancos, essa mudança acarretou perder seus maiores clientes e recorrer a novos locais para investir seu dinheiro, o que tornou esse investimento concentrado em credores duvidosos. O excesso de crédito direcionado a investimentos de baixa qualidade contribuiu para a bolha econômica do Japão, a qual estava cada vez maior: o mercado acionário japonês correspondia a cerca de 42% de toda a capitalização mundial. Investidores passaram a perceber que os preços não condiziam com a realidade. Essa bolha uma hora ou outra teria de explodir, o que ocorreu em 1989. Quando a bolha estourou, observou-se uma queda dos 39 mil pontos do mercado acionário japonês em 1989 para 14 mil pontos em 1992. Até hoje, o mercado japonês não recuperou seu pico de 1989, marcado pela euforia. Desde 1990, o PIB japonês está estagnado. Por exemplo, o PIB do país em 1994 era de US$ 4,9 trilhões, o mesmo observado em 2020. Portanto, o Japão não teve nenhum crescimento em seu PIB em 25 anos. Para piorar a situação, as medidas expansionistas tomadas por seu banco central para reverter a recessão não tiveram efeito. Quando o Banco do Japão injetou dinheiro na economia, os japoneses não consumiram, mas pouparam. Isso tornou os estímulos ineficientes e apenas aumentou a dívida do país. Para nós, investidores, a maior lição a se tirar dessa grande crise japonesa é nunca esquecer o valor das ações que compramos. De tempos em tempos, no mercado acionário, investidores são marcados pela euforia e esquecem as empresas por trás das ações, comprando apenas narrativas de um crescimento eterno. Uma hora ou outra, o preço converge para o valor. Se você comprar ativos supervalorizados, esse resultado nunca será bom. Por isso, sempre busque comprar ativos cujo preço seja menor que seu valor intrínseco.

A Bolha do Mercado Acionário Japonês