Economia Comportamental

A teoria econômica tradicional é povoada por princípios e conceitos que modelam o ser humano como um indivíduo racional, conhecido como homo economicus. Esse indivíduo, analisando todas as informações disponíveis, tomaria decisões com base em cálculos quantitativos. Por exemplo, consumidores pensam em como maximizar seu consumo, tendo em vista suas restrições orçamentárias. Administradores de empresas maximizam seus lucros calculando orçamento, custos e benefícios. Mas como bem descreveu Gregory Mankiw, “as pessoas reais, contudo, são Homo sapiens”. Apesar de o ser humano de certa forma se assemelhar a esse ser econômico – racional e calculista –, ele é mais complexo. As decisões dos Homo sapiens podem ser influenciadas por fatores como hábitos, cultura, experiência pessoal e emoção, bem como pelo comportamento de outras pessoas. De forma geral, os indivíduos têm dificuldade de equilibrar demandas de curto e longo prazo e, muitas vezes, tomam decisões que satisfazem suas necessidades apenas no momento presente. Assim, surgiu recentemente a economia comportamental – em contraposição à visão tradicional –, na tentativa de entender melhor as decisões dos indivíduos e dos mercados, levando em conta esses fatores subjetivos. Ela utiliza tanto aspectos da economia mainstream como da psicologia, neurociência, entre outros campos das ciências sociais. Ou seja, a economia comportamental busca compreender e modelar as decisões das pessoas de forma mais realista. Para se ter ideia da importância recente dessa área, o estudo da economia comportamental já rendeu dois prêmios Nobel de Economia: ao psicólogo Daniel Kahneman, em 2002, e ao economista Richard Thaler, em 2017. Caso você tenha mais interesse nesse assunto, indicamos os livros Rápido e Devagar: as duas formas de pensar, de Kahneman, e Misbehaving: a construção da economia comportamental, de Thaler. Nesse perspectiva, vamos apresentar algumas descobertas dessa “nova” economia. A primeira delas: os indivíduos são excessivamente confiantes. Pesquisas mostram que 80% das pessoas se consideram acima da média com relação às suas habilidades como motorista, senso de humor, capacidade de liderança, entre outras. Da mesma forma, vários investidores acreditam que sua habilidade de bater o mercado está acima da média. Dispor de muito dinheiro, formação acadêmica e acesso a informações e tecnologia induz os indivíduos a um comportamento de autoconfiança. Na realidade, porém, vencer o mercado é extremamente difícil: esse tipo de comportamento pode acarretar perdas consideráveis. Outro resultado interessante é que as pessoas relutam em mudar de ideia. Elas tendem, isto é, nós tendemos a dar um peso maior às evidências que confirmem nossas próprias crenças. Por exemplo, quando lemos um relatório de investimento, procuramos ver os lados positivos e negativos das empresas. Mas muitas vezes, mesmo com pontos negativos relevantes, os investidores – por gostarem do negócio em questão – dão mais importância aos positivos. Dessa forma, duas pessoas, ao olharem o mesmo relatório, podem apresentar interpretações opostas devido às suas preferências pessoais. Por fim, gostaríamos de falar do comportamento de manada. O comportamento de manada é a tendência das pessoas de seguir um grupo, acreditando que a opinião da maioria é a correta. De maneira geral, ao nos depararmos com problemas ou soluções complexas, optamos por seguir a multidão. Bolhas especulativas surgem, em muitos casos, devido à compra intensa de determinado ativo. Ao começar a se valorizar, ele atrai a atenção de outros investidores – mesmo não sendo, necessariamente, um bom investimento. Nesse sentido, o preço da ação começa a subir, até que algumas pessoas percebem que seu valor está muito acima dos fundamentos econômicos da empresa. Assim, inicia-se um processo intenso de vendas, o que leva a outro efeito manada. Afinal, um grupo de investidores começa a vender as ações, e todo mundo vai atrás. O investidor pode acabar abandonando o senso de análise apenas por medo de perder a viagem. E por que precisamos nos debruçar sobre esses conceitos? Saber o que influencia as decisões humanas – hábitos, cultura, experiências, emoções – pode diminuir nossos erros e vieses em momentos de turbulência. Além disso, pode nos tornar mais independentes e seguros em nossas tomadas de decisão, bem como melhorar nossos resultados no futuro.

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