Reflexões Sobre o Valor Intrínseco

Iremos publicar esse grande artigo de Tiago Reis que explica de forma muito clara as formas de avaliarmos o mercado de ações. Selecionar boas empresas é algo importante demais nesse momento de instabilidade que estamos, pois algumas apostas podem nunca se confirmar, mas boas empresas podem até demorar, mas consegue se recuperar. No mundo dos investimentos, existem diversas estratégias disseminadas em uma infinidade de livros e artigos. As duas principais são a análise técnica e a análise fundamentalista. A primeira estratégia se baseia puramente no movimento dos preços dos ativos. Com base nos dados do passado e com auxílio da estatística, os analistas técnicos tentam prever a próxima subida (ou descida) no curto prazo para ganhar, por exemplo, comprando a um patamar mais barato e vendendo rapidamente a preços mais elevados. Entretanto, segundo a teoria do passeio aleatório (random walk hypothesis), de Eugene Fama, as variações dos preços das ações independem uma da outra. Ou seja, trata-se de um processo aleatório que não ajuda a estimar a valorização futura dos ativos. É similar a pensar que, mesmo se uma moeda desse 10 “caras” seguidas, ao jogá-la pela 11ª vez, a probabilidade de cair “cara” novamente seria a mesma de 50%. Por sua vez, a segunda estratégia se concentra nos fundamentos de uma empresa. Ela contém basicamente duas frentes: value investing e growth investing. Na forma mais simples, o investimento em valor defende que, para se investir com sucesso, deve-se comprar um ativo abaixo de seu valor intrínseco e vendê-lo a um preço superior. Mas o que é o valor intrínseco? Segundo Warren Buffett, o valor intrínseco é determinado pelos fluxos de caixa futuro trazidos a valor presente que podem ser retirados da companhia durante sua existência. Em outras palavras, o crescimento da geração de caixa livre aumenta o valor intrínseco da empresa. E como os fundamentos da empresa estão relacionados ao valor dela? Fundamentos como a qualidade do produto/serviço, da capacidade de produção, do crescimento potencial, da gestão, das vantagens competitivas, da força da marca, da solidez do balanço, dos resultados financeiros, dos recursos humanos, das patentes, entre diversos outros elementos, são as características que, em última instância, refletem a capacidade de uma empresa gerar caixa. Portanto, quanto melhores os fundamentos de um negócio, maior será sua capacidade de gerar caixa, o que resulta em um aumento do valor intrínseco. Na forma mais elementar, o investidor de valor busca comprar ativos por preços de barganha, de modo que diminua o risco por meio da margem de segurança. Apesar de a ideia ser simples, sua aplicação não é fácil. Vejamos dois pontos que esclarecem a dificuldade de encontrar barganhas: Primeiro, você deve ter em mãos uma boa estimativa do valor. Afinal, se pagar caro, será necessária uma valorização surpreendente, um mercado em alta ou um comprador ainda menos exigente para compensar o preço pago. O segundo ponto é que, se você estiver correto, deve se ater ao valor estimado. Por exemplo, suponha que o valor calculado para as ações de uma empresa é R$ 100, mas que ela está cotada a R$ 60 na bolsa. Então você compra nesse preço, afinal a ação segue bem descontada. Porém, nos dias seguintes, o pregão nos mostra preços de R$ 55, depois R$ 50 e, por fim, R$ 40. Se você não mantiver o temperamento certo, poderá se fraudar com pensamentos como “talvez eu esteja errado; e o mercado, certo” ou “caiu tanto que venderei antes que atinja R$ 0”. A aversão a perdas é da natureza humana. Logo, é comum ficarmos preocupados com preços caindo assim que compramos. Porém, deveríamos estar dispostos a comprar mais ações em casos de queda de preços, bem como compramos mais roupas, mais comida ou qualquer outro item de consumo em promoção. Se os fundamentos não mudam, racionalmente, é melhor investir mais (ou manter a posição) do que fazer o contrário, isto é, resgatar com prejuízo! No mercado acionário, estar certo não é a mesma coisa que se provar certo imediatamente. Como no exemplo anterior: apesar de você estar certo sobre o valor intrínseco de R$ 100 (e ter comprado a R$ 60), é quase sempre inevitável que a ação caia no curto prazo antes de se aproximar de seu real valor no longo prazo. Em resumo, os investidores em valor são pacientes o suficiente para encontrar as reais barganhas e investir com margem de segurança. Após a compra, é preciso apenas ater-se ao valor intrínseco estimado e ignorar a volatilidade do curto prazo. Assim, o ativo caminhará até seu valor intrínseco, em caso de acerto. Por fim, em The Most Important Thing, Howard Marks afirma: “Para o investimento ser bem-sucedido, uma estimativa precisa do valor intrínseco é o ponto de início indispensável. Sem ela, qualquer esperança para o sucesso consistente como um investidor é nada além disso: uma esperança”.

Reflexões Sobre o Valor Intrínseco